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Ataque a navio iraniano põe em risco novas negociações entre EUA e Irã
Apreensão do cargueiro Touska por forças americanas, em meio a um bloqueio no Golfo de Omã, leva Teerã a recuar do diálogo e provoca ameaças de retaliação
Oriente-Medio
Foto: https://www.infomoney.com.br/wp-content/uploads/2026/04/2026-04-19T233504Z_467002973_RC2MSKAZI91Y_RTRMADP_3_IRAN-CRISIS-TRUMP-SHIP.jpg?fit=5120%2C2880&quality=50&strip=all
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■   Bernardo Cahue, 20/04/2026

Os Estados Unidos interceptaram e atacaram um navio cargueiro de bandeira iraniana neste domingo (19), no Golfo de Omã, sob a justificativa de que a embarcação tentava furar o bloqueio naval imposto por Washington aos portos do Irã. A ação militar, divulgada pelo presidente Donald Trump em sua rede social, elevou a tensão entre os dois países a poucos dias do fim do cessar-fogo, marcado para 22 de abril, e colocou em xeque as negociações de paz que estavam agendadas para esta semana no Paquistão.

Segundo o Comando Central dos EUA (CENTCOM), o contratorpedeiro de mísseis guiados USS Spruance interceptou o navio Touska, de quase 275 metros de comprimento, e emitiu avisos para que a tripulação parasse a embarcação. Após a recusa dos iranianos durante um período de aproximadamente seis horas, os militares americanos abriram fogo contra a sala de máquinas, desativando os sistemas de propulsão do cargueiro. Em seguida, fuzileiros navais dos EUA abordaram a embarcação, assumindo seu controle. Trump declarou que "um buraco foi aberto na casa de máquinas" e que os militares agora verificam a carga a bordo.

O governo iraniano reagiu com duras críticas, classificando a ação como "ato de pirataria armada" e uma violação do cessar-fogo em vigor. "As Forças Armadas da República Islâmica do Irã responderão prontamente e retaliarão contra este ato de pirataria armada da Marinha dos EUA", declarou o alto comando militar iraniano em comunicado. Ainda segundo Teerã, o navio havia partido da Malásia com destino ao porto iraniano de Bandar Abbas e transportava produtos comercializáveis. A mídia estatal iraniana informou que, em retaliação, drones foram lançados contra navios de guerra dos Estados Unidos na região.

O ataque ocorreu em um momento crítico para as relações entre os dois países. Horas antes, a Casa Branca havia confirmado que o vice-presidente JD Vance lideraria uma delegação americana ao Paquistão para uma nova rodada de negociações, prevista para esta segunda-feira (20) ou terça-feira (21). Trump, inclusive, havia reiterado que seu governo apresentaria uma proposta "justa e razoável" e ameaçou destruir "cada usina de energia e cada ponte" no Irã caso o país se recusasse a cooperar. Entretanto, após o incidente no Golfo de Omã, o Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que, por enquanto, não há planos para participar das conversações. O porta-voz Esmail Baqai disse a jornalistas: "Neste momento, enquanto falo, não temos nenhum plano para a próxima rodada de negociações", acrescentando que os EUA não têm sido sérios no processo diplomático, adotando "expectativas irrealistas" e mantendo o bloqueio naval, considerado uma violação do cessar-fogo.

O impasse já produzia impactos concretos na economia global. Os preços do petróleo dispararam nos mercados internacionais, com o barril do tipo Brent, referência global, sendo negociado a cerca de US$ 95, uma alta de mais de 30% desde o início do conflito, em fevereiro. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, teve seu tráfego novamente paralisado, agravando as preocupações com o abastecimento de energia. O primeiro-vice-presidente do Irã, Mohammad Reza Aref, alertou em uma rede social que "a segurança do Estreito de Ormuz não é gratuita" e que a estabilidade dos preços globais do combustível depende do fim da pressão econômica e militar contra seu país.

A comunidade internacional acompanha o desenrolar dos acontecimentos com cautela. A China, por meio de seu porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, expressou preocupação com a interceptação forçada do navio pelos EUA e pediu que as partes envolvidas honrem o acordo de cessar-fogo de maneira responsável, evitando agravar as disputas e escalar as tensões, a fim de criar condições para a restauração da passagem normal pelo Estreito. O Paquistão, país mediador, colocou a capital Islamabad em alerta máximo de segurança, com o deslocamento de cerca de 20 mil policiais e militares para a região. Na Europa, a França reportou que um de seus navios de carga, o CMA CGM Everglade, foi atingido por tiros iranianos no sábado (18) durante a paralisação do tráfego no estreito, o que reforça a percepção de que a situação na principal via navegável do Oriente Médio está longe de ser normalizada.

Analistas ouvidos pela imprensa internacional avaliam que tanto Washington quanto Teerã estão testando as linhas vermelhas uma da outra, mantendo uma postura de dissuasão enquanto buscam ganhos táticos antes de uma possível rodada de negociações. "Os EUA provavelmente esperam entrar nas negociações a partir de uma posição de pressão, ao mesmo tempo que mostram ao seu público interno que continuam firmes contra o Irã", avaliou Ding Long, professor do Instituto de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai. Com o cessar-fogo prestes a expirar e as hostilidades recomeçando, a perspectiva de uma solução diplomática para o conflito, que já matou mais de 3.300 pessoas no Irã e 13 militares americanos, torna-se cada vez mais distante.

Com informações de G1, BBC News Brasil, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, UOL, Expresso, Franceinfo, Le Monde, China Daily, Global Times, Alquds, BBC News (Japonês), CCTV, Reuters, Associated Press, Bloomberg, Jiji, Nikkei, Asahi Shimbun, El País, DW, Antena 3, Le Soir, La Presse, Euronews, Journal de Montréal, TVBS News, TVBS, R7, InfoMoney, Brasil de Fato ■

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